O rio que alargou seu leito

Projeto Manuelzão celebra uma década de luta pela revitalização do Rio das Velhas

Arquivo Projeto Manuelzão
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Foto histórica que marcou a fundação do Projeto, com a presença do vaqueiro Manuelzão (ao centro, de chapéu)

Carolina Silveira*

Em janeiro de 1997, um grupo de estudantes e professores posa para a foto oficial de fundação do Projeto Manuelzão na porta da Faculdade de Medicina da UFMG. No meio deles, de barba branca e bengala na mão, o inspirador da iniciativa: Manuel Nardi, o lendário vaqueiro do sertão de Guimarães Rosa.

Esse registro marcou o início de um projeto que, depois de quase 11 anos, “alargou o seu leito”, metáfora usada por um de seus coordenadores para ilustrar o território escolhido para a ação: a bacia do Rio das Velhas. A trajetória iniciada com a foto que uniu o vaqueiro de Rosa e os pesquisadores da UFMG será rememorada nesta terça-feira, 11 de dezembro, em cerimônia no Salão Nobre da Faculdade de Medicina da UFMG. O encontro será realizado às 17 horas e reunirá representantes das organizações envolvidas na iniciativa.

A escolha do Rio das Velhas como raio de ação deu-se bem antes da criação do Manuelzão. Seus primórdios remontam ao ano de 1989, quando o professor Apolo Heringer Lisboa, hoje coordenador-geral do Projeto, elaborou proposta de revitalização da bacia do Rio das Velhas. A idéia foi retomada em 1996 e apresentada em reunião da Faculdade de Medicina que rediscutia os rumos do Internato Rural, cuja atuação estava muito voltada para o assistencialismo e não para a saúde coletiva, seu objetivo original. Na opinião do professor Apolo, era preciso definir um território e uma linha de atuação. O Rio das Velhas conseguia traduzir essa necessidade. “Com ele tínhamos um território, a bacia e um objetivo – a volta do peixe ao rio”, resume o professor.

Inicialmente vinculado estritamente ao Departamento de Medicina Preventiva, na Faculdade de Medicina, o Projeto ampliou seu campo de ação. “Quando começamos, havia um sentimento, uma percepção de que a idéia da volta do peixe tinha potencial de mobilização”, explica o professor Thomaz da Matta Machado, um dos cinco coordenadores do Projeto.

Com o tempo, o Manuelzão sofisticou suas referências, incorporou conhecimentos, ampliou interlocutores e transformou uma idéia em propostas de políticas públicas efetivas. Uma delas foi batizada com o nome de Navegar, pescar e nadar no Rio das Velhas em sua passagem pela Região Metropolitana de Belo Horizonte até 2010.A iniciativa envolve várias áreas da Universidade, como o departamento de Comunicação da Fafich e os institutos de Ciências Biológicas (ICB) e de Geociências (IGC). Também consolidou parcerias com o poder público, com o setor empresarial e a sociedade civil organizada.

Em 2002, ganhou uma área de 150 metros quadrados no prédio da Unidade Administrativa 3, no campus Pampulha.Nascia ali o Núcleo Transdisciplinar e Transinstitucional pela Revitalização da Bacia do Rio das Velhas (Nuvelhas). O inventário dos peixes da bacia e a comprovação de que eles podem voltar ao rio a partir dos afluentes são alguns dos resultados das pesquisas desenvolvidas pelos pesquisadores do Manuelzão.

Apenas em 2006, foram realizados dez cursos de biomonitoramento, 23 seminários regionais e o georreferenciamento de 693 escolas da bacia do Velhas. Atualmente, 114 escolas organizam atividades relacionadas ao Projeto Manuelzão. Ao todo, já foram criados 51 Núcleos Manuelzão locais.
O Manuelzão ganhou as ruas. E é nelas, por meio de grandes mobilizações, que o Projeto convoca novos atores a perceber o Velhas com outros olhares.

Ao todo, já foram sete grandes eventos, sendo que o primeiro deles foi a expedição Manuelzão desce o Rio das Velhas, realizada em 2003. Depois vieram os seus “filhotes”: as expedições nos afluentes do Rio das Velhas – os ribeirões Taquaraçu (2005), Curimataí e da Mata, ambos em 2006, e Jaboticatubas (2007). Outros desdobramentos foram as duas edições do FestiVelhas, a primeira em Morro da Garça, em 2005, e a última em Jequitibá, em setembro passado. “Eventos como a Expedição convocam as pessoas a se integrarem conscientemente à nossa causa”, diz o coordenador-geral do Projeto Manuelzão, Apolo Heringer Lisboa.

Ativismo

Apesar da evolução do Projeto, o professor Thomaz Matta Machado observa que falta sistematizar melhor suas experiências por meio da publicação de estudos. Segundo ele, as expedições são uma forma de mobilização inovadora e que ajudam a compreender os problemas que afligem o rio. Mas ele lembra que as equipes envolvidas despendem muitos esforços na atividade prática. “A extensão universitária nos obriga a um ativismo muito grande”, ressalta o coordenador, que acrescenta: “Desenvolvemos um projeto de extensão inovador e que precisa ser reproduzido.

Mas, para isso, deve ser transformado em publicações”.
“Nem em nossos melhores dias, imaginei que o Projeto fosse alcançar tamanha projeção”, afirma Marcus Vinicius Polignano, outro coordenador da iniciativa. Ele lembra que muitos viam os fundadores do Manuelzão como loucos e os criticavam por tratar de temas que, a princípio, não diziam respeito à Medicina. A trajetória mostrou que aquela era uma loucura típica daqueles que enxergam além do horizonte. “Estamos desenvolvendo tecnologia, aprendendo a avaliar o rio e criando meios de passar esse conhecimento para a comunidade”, conclui Thomaz Mata Machado.

*Jornalista do Projeto Manuelzão

 

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