Uma assembleia a beira do rio
Agora, por aqui, o senhor já viu: Rio São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno vereda. E algum ribeirão (Guimarães Rosa)

MIGUEL GLUGOSKI (jornal da USP ano XXI no.741)

Disponível em: http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2005/jusp741/pag0304.htm

 

 
N
um dia de outubro de 2005, na beira do Velho Chico, no sertão Nordestino, em Cabrobó, Pernambuco, São Francisco conversa com os irmãos pássaros, com os irmãos peixes e com os irmãos bichos do mato. Hábito marrom longo, cinto grosso de pontas pendentes, cabelo raspado em redondo e chinelos pisando em água rasa, o santo conversa, não com aves, peixes e bichos que conheceu na sua Assis italiana; conversa com a fauna típica sertaneja do Nordeste, aquela que é ao mesmo tempo boa de ver, ouvir e alimentar comunidades carentes. Asa-branca, jandaia, jacu, sofrê, sanhaço, nhambu, canção-de-fogo, zabelê, juriti, codorna, cardeal, bem-te-vi, garça, paturi, mergulhão, carcará, gavião, fogo-pagou, rolinha, bigodinho, viuvinha, socó, arribação, azulão, surubim, dourado, matrinxã, piranha-preta, mandi, pocomã, curimatá, pirambeba, piau-de-cheiro, piau-cavalo, pirá, piaba, molão, curvina, maria-oião; jacaré, cotia, capivara, cobra-preta, cascavel, cobra-d’água, paca, mocó, tatu, caititu. Queixam-se as aves. Estão acabando com a mata ciliar, as flores e as sementes escasseiam, não temos mais onde construir ninhos, nos reproduzir, e caboclos famintos nos matam para se alimentar. Queixam-se os peixes. As hidrelétricas, as barragens, os desbarrancamentos acabaram com as lagoas marginais, que é o melhor lugar para se viver. Queixam-se os bichos. É duro procurar alimento em água poluída, em solo sem raízes, em terreno devastado. O santo a todos consola, lembrando que são “Bem-aventurados os que sustentam a paz, que por ti, Altíssimo, serão coroados”.


Grupo de alunos do Departamento de Geografia da USP, com o bispo Luiz Flávio Cappio, em Barra


A Irmã Lua desaparece ofuscada pelo Irmão Sol, que ilumina as águas do São Francisco e os arredores da praia doce. De repente, a surpresa: as margens do rio se enchem de gente estranha, numa assembléia que congrega padres moderados, padres avançados, representantes de suas comunidades, ministros, governadores, cientistas, professores de universidades. Todos falam ao mesmo tempo, todos discordam de quase todos, numa espécie de roda viva que não chega a acordo nenhum. Mas o saldo parece positivo: há debate. Debate sobre a transposição do rio São Francisco. É o tema. E é exatamente isso que aquele personagem em destaque, ao lado de São Francisco, vestido como São Francisco, mas que não é São Francisco, queria. Parar para pensar melhor na conveniência de executar, ou não, o projeto do governo, de captar água do rio maior para levá-la a outros Estados da região do Semi-Árido. À custa de 4,5 bilhões, só na primeira etapa. Para isso ele fez onze dias de greve de fome. Quem é ele, afinal?, pergunta alguém da platéia? Será Frei Damião? Não se apressem, responde um sociólogo da USP, Flávio Pierucci. É o bispo Luiz Flávio Cappio, da diocese de Barra, na Bahia. Totalmente contemporâneo. Seria apressado falar em permanências históricas, sentencia o professor.

Muito próximo do bispo, um jornalista ergue um livro, que acabou de escrever. Os descaminhos do São Francisco. Aquele eu conheço, diz um padre avançado, é Marco Antonio Coelho; trabalha no Instituto de Estudos Avançados da USP e edita a revista Estudos Avançados. Mas não é ele que se declara comunista, e até escreveu um livro de memórias, lembrando os apuros que passou na clandestinidade na época da ditadura?, estranha um padre moderado. O que está fazendo ao lado do bispo? Ora, responde o primeiro padre, trata-se de um militante das causas sociais e pesquisador do rio São Francisco. Você não se lembra que a Teologia da Libertação foi buscar nas teorias de Marx e Lenin, não os fundamentos, mas subsídios para uma doutrina católica mais preocupada com o homem? É verdade que a tendência chegou a assustar um pouco esse Karol Wojtyla, mais conhecido por João Paulo II, que, a esta altura, São Francisco deve conhecer pessoalmente, do Paraíso. Veja que hoje em dia nem Bento XVI se preocupa com esses inovadores. Mineiro de Belo Horizonte, Marco Antonio começou por um livro sobre o rio das Velhas, que o Projeto Manoelzão (aquele personagem de Guimarães Rosa) tentou recuperar e com isso melhorar um pouco a precária situação das comunidades ribeirinhas. O jornalista acabou desaguando no Velho Chico, de onde saíram quase 300 páginas, em defesa de posições que o bispo de Barra assumiu até com risco de vida.

Esse bispo foi enganado pelo governo e vai voltar à greve de fome, como ameaçou fazer, garante um veterano especialista em assuntos hídricos do Nordeste, o professor Aldo Rebouças, aposentado do Instituto de Geociências da USP. Trata-se de mais um capítulo da indústria da seca, numa região onde as águas são públicas, mas o uso é privado. A única saída para o problema é a educação do povo, o uso inteligente da água. Se não bastasse a indolência, a falta de criatividade e de ação dos ribeirinhos, agora acresce o problema da violência, os assaltos aos paus-de-arara, lamenta o pesquisador do IEA e autor de Águas doces no Brasil, cuja terceira edição está para sair.


Captação de água e erosão no rio São Francisco: “Bem-aventurados os que sustentam a paz, que por ti, Altíssimo, serão coroados”

A seu lado, com a autoridade de especialista em geografia humana e vice-diretor do Instituto de Estudos Brasileiros, Dieter Heidemann constata: vivemos num sistema de mercadorias, num mundo monetarizado, onde não há soluções para pessoas. Adorno, o alemão, já dizia que não existe o certo no errado. No caso do São Francisco, não existe problema técnico, mas social. Se há no Brasil concentração de terras, há também concentração de águas, e o projeto do governo acentua a desigualdade. O mercado é um bicho feroz; está tão profundamente arraigado nos nossos hábitos e valores que quem pensa na contramão passa por louco, por excêntrico. O bispo? Ajeitou as coisas, mas é bom que siga o conselho de Walter Benjamin, outro pensador alemão, que deu em artigo intitulado “O caráter destrutivo”: o suicídio não vale a pena. Vale a pena fazer uma análise crítica da sociedade, pensar na contramão e ter em mente que não há mais heróis ou líderes revolucionários que venham nos salvar.

Já passou o tempo em que a redenção vinha do proletariado. E é isso que, ao lado do mestre e incentivador, um grupo de alunos do Departamento de Geografia Humana, um da Sociologia, quer dizer na assembléia que tem a santa presença de Francisco de Assis. José De Sousa Sobrinho, mestrando; Eduardo Egirotto, da iniciação científica; Erick Kluck, em conclusão de curso; Luciana Scurcialupi, em conclusão de curso na Sociologia; e Marcelo Gonçalves, também concluindo o curso, saíram a campo, ainda em 1996, com apoio do professor Dieter, na base da mochila, da barraca, da carona, sem auxílio em dinheiro, dispostos a estudar o Vale do São Francisco.

Mais recentemente, conseguiram um carro. Em 2001, contam, fomos cair na Barra, onde conhecemos Frei Luiz Cappio, que nos recebeu de braços franciscanos, nos apresentou à comunidade e aos seus muitos problemas. Vimos que a diocese desempenha o papel do Estado, depois que o governo abandonou a navegação do São Francisco, abriu estradas de terra e praticamente isolou os mais de 40 mil habitantes da região. Com orientação do bispo, a comunidade constrói cisternas, cuida da saúde, combate a hanseníase (muito comum) e mantém convênio com o hospital São Rafael, de Salvador, também da Igreja, mantido por católicos italianos, para onde transporta os doentes mais graves.

A cada três meses, médicos integrados ao projeto do bispo percorrem as aldeias e cuidam dos necessitados, como fazia aquele santo que agora conversa com peixes, aves e feras em Cabrobó. Oásis de produção empresarial existem em Barra e arredores, mas as comunidades pobres não participam dela.

Não têm como produzir frutas de exportação, como uva, goiaba, manga, melão, banana; limitam-se a plantar feijão, arroz e outras coisas simples que suas panelas vazias aceitam de bom grado. As pequenas propriedades foram desapropriadas, a agricultura empresarial tomou conta do pedaço. Bom para a balança comercial; ruim para a gente simples da comunidade. Comunidade tão agradecida ao bispo que até lhe atribui milagres. Por exemplo, andar sobre as águas. Se anda, deve ser milagre mesmo, pois não é crível que o São Francisco esteja tão poluído que permita passeios desse tipo.

O burburinho ao redor do santo, do bispo e da fauna não é só de crítica ao projeto, cuja defesa mais veemente ficou por conta do ministro Ciro Gomes, da Integração Nacional. Em seu socorro chegam os Tundisi – José Galizia e Takako Matsumura – professores da USP de São Carlos, que trabalham no Instituto Internacional (José Galísia está presente simbolicamente, porque de corpo participa de um congresso na Coréia). Takako discorre sobre estudos de impacto ambiental que ambos realizaram em 30 reservatórios projetados para o São Francisco. O de Atalho merece citação à parte. Suas projeções vão até o ano de 2025, indicando que o plano será bem-sucedido se houver ao mesmo tempo um trabalho sério de saneamento, que inclui tratamento de esgotos, domésticos e industriais, e ocupação racional do solo. A água no local em que se fará a extração é de boa qualidade e ficará melhor nos açudes, se cumpridas as exigências dos cientistas. Não se sabe se o frei Luiz Flávio Cappio ouviu o comentário, mas Takako Matsumura Tundisi acha que, fazendo greve de fome contra o projeto de transposição das águas do rio São Francisco, o bispo só pensa nos problemas locais. Seria uma atitude pouco católica?

Há ainda outro cientista da USP que opina sobre o projeto do governo, revelando-se um pouco a favor e um pouco contra. É Paulo Nogueira Neto. Na assembléia presidida pelo santo de Assis (que o professor deve venerar, pois se declara católico praticante), explica que é a favor do desvio da água porque sem água boa não há desenvolvimento possível, e uma parte dos nordestinos a tem escassa. Mas reprova o projeto, que, segundo ele, deveria vir precedido de algumas medidas básicas, entre as quais a desativação das usinas hidrelétricas. Mesmo que a execução da obra demore, é melhor do que encher o rio de barragens, impedir piracemas, evaporar água em grandes lagos. É o parecer que Nogueira Neto deu, não agora, mas há 13 anos. E o mantém. Quanto ao bispo da greve de fome, que Deus o perdoe, mas o ecologista considera que fez loucura, arriscou morrer, em vez de defender a vida, como era de esperar de um prelado.

Abençoados e recolhidos ao fundo os peixes, embrenhados na mata os bichos, revoados os pássaros, e cansada a assembléia dos homens, fechou-se o dia, com o Irmão Sol já se pondo. São Francisco fez-se invisível, mas um cântico ainda roçava as águas do Velho Chico: “Altíssimo, onipotente e bom Deus/ Teus são o louvor, a glória, a honra/ E toda a bênção. Amém”.

Se Lula não cumprir o que prometeu, eu volto, disse o bispo. E foi para São Paulo.


Encontro do Rio das Velhas com o Rio São Francisco

Os descaminhos do rio

Discreto, Marco Antonio Coelho pouco falou na assembléia à beira do rio. Seu livro, o último, merece mais. Ele conta que o projeto Manoelzão nasceu na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, quando meia dúzia de alunos ficou seis meses no interior para atender a população carente. Se a poluição do rio das Velhas já trazia doenças, ficou claro que o problema maior se localizava no São Francisco. Das cidades grandes como a capital mineira vinha a poluição; das mineradoras, o assoreamento; da agricultura e pecuária, os agrotóxicos; e da devastação das matas ciliares (que são para a água o que os cílios são para os olhos), o desbarrancamento e suas conseqüências. Tudo isso levou o jornalista e pesquisador do IEA a planejar um levantamento global do chamado rio de integração nacional, que desde 1940 ninguém estudou tão abrangentemente.

No entanto, nem tudo deu certo. Faltaram recursos e equipes para a empreitada. Mesmo assim, Marco Antonio não desistiu. Ficou claro para ele, desde o começo, que o grande rio mudou completamente a partir da metade do século 20, em razão da construção de usinas hidrelétricas como Paulo Afonso e Três Marias, e seus reservatórios. Antes, o São Francisco era o Nilo brasileiro: nas enchentes fertilizava as margens, a agricultura podia prosperar, as populações ribeirinhas tinham peixe de pegar com as mãos. Depois, acabaram-se as lagoas marginais, a vazão do rio passou a vacilar dramaticamente, os projetos dos militares esqueceram-se das eclusas, o que prejudicava a reprodução de peixes (o governo de Ernesto Geisel corrigiu a falha em parte), cidades desapareceram (Casa Nova, Centopé, Pilão, Remanso). E ninguém podia reclamar, pois o projeto era considerado de segurança nacional.

Foi assim, segundo Marco Antonio, e assim continua sendo com a proposta do governo de transpor águas: rios desaparecem, água até torrencial está disponível para movimentar turbinas, mas do ponto de vista social “’é um absurdo”. O jornalista está com a Igreja, que conhece projetos faraônicos e nunca executados há mais de 150 anos, e com o bispo de Barra. Na sua opinião, é muito dinheiro jogado fora, que seria mais bem aplicado em infra-estrutura que atendesse mais diretamente as comunidades. “Já observaram que os projetos oficiais para o Nordeste são sempre ‘contra’ alguma coisa, e não a favor? “, observa o autor de Os descaminhos
do São Francisco.

Como o bispo de Barra, que em 1993 participou de uma caminhada de um ano ao longo do rio e sobre ela escreveu um livro (Rio São Francisco, uma caminhada entre vida e morte), mas sem fazer greve de fome, Marco Antonio recomenda a convivência com a seca e um grande debate nacional, lembrando que a questão da água não depende só do governo ou de poucas pessoas. A Lei dos Recursos Hídricos está aí para ser cumprida democraticamente

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