A cidade e suas paisagens: transformações e ocupações

Natascha Stefania Carvalho Ostos | Universidade Federal de Minas Gerais| natashaostos@hotmail.com
Regina Horta Duarte | Universidade Federal de Minas Gerais | reginahd@uai.com.br

A questão ambiental adquiriu relevância na contemporaneidade, fomentando discussões relacionadas ao desenvolvimento sustentável, à preservação da natureza e à qualidade de vida nas grandes cidades. As relações entre a sociedade e a natureza ocorrem não apenas nas florestas, áreas preservadas ou regiões campestres, mas também nos espaços urbanos. O ambiente citadino, tradicionalmente considerado como um lugar artificial, possui construções, objetos e equipamentos retirados da natureza, ainda que modificados pela ação humana. O mundo natural também se faz presente no ambiente urbano de outras maneiras, através dos rios que cortam as cidades, das chuvas que as atingem, das árvores que integram a paisagem, da variedade da avifauna e dos insetos que ali habitam.

As questões ambientais urbanas estão, muitas vezes, diretamente relacionadas com os problemas sociais enfrentados pela população. A intensa concentração demográfica, o crescimento desordenado das regiões metropolitanas, o aumento do número de veículos circulando nas vias públicas são alguns dos desafios que integram a realidade das grandes cidades brasileiras e que provocam diversos problemas socioambientais, como saneamento básico precário e abastecimento de água deficiente; poluição do ar; produção excessiva de lixo; destruição dos espaços verdes; desmoronamentos de terra e aumento na freqüência de enchentes pelo avanço das áreas construídas. No caso dos chamados “desastres ambientais”, é a população pobre que mais duramente sofre as conseqüências desses fenômenos, já que a lógica da organização espacial e da distribuição das pessoas pelo território está intimamente vinculada à capacidade econômica dos indivíduos.

As relações humanas com a natureza urbana também se constituem por meio do desenvolvimento de fortes vínculos afetivos para com os elementos naturais. As árvores, os parques, algumas espécies de animais e plantas integram a memória coletiva, a identidade e o imaginário dos habitantes. No caso da cidade de Belo Horizonte — projetada em fins do XIX a partir de uma interpretação positivista da concepção de Cidade Jardim elaborada pelo inglês Ebenezer Horward — a necessidade de arborização dos espaços públicos e a presença de áreas verdes integraram, ao longo do tempo, o rol de preocupações dos governantes, despertando o interesse de diversos segmentos da população. Mais tarde, os órgãos públicos passaram a privilegiar medidas de expansão do tecido urbano. Antigas zonas verdes tiveram a sua extensão diminuída e inúmeras árvores foram sacrificadas para dar lugar às vias de trânsito e a novas construções.

Entre as regiões que sofreram com o encolhimento dos espaços verdes estava o centro da cidade que, originalmente, contava com uma área verde de 600 hectares do Parque Municipal, hoje reduzido a 180 hectares. A primeira área foi desapropriada pela Prefeitura, em 1911, para a construção da Faculdade de Medicina, hoje incorporada à Universidade Federal de Minas Gerais. Desde então, a paisagem desse local foi modificada não só pela construção de vários edifícios e pela movimentação da vida universitária, mas também em sua arborização. Inicialmente, a maior parte das árvores foi eliminada, constituindo uma paisagem em que se destacavam os primeiros prédios de estilo neoclássico, além de um campo de futebol onde estudantes e moradores disputavam animadas partidas no solo desnudo de terra vermelha batida.

A construção do prédio da Faculdade em terreno antes pertencente ao Parque Municipal foi apontada por muitos como uma espécie de pecado original. Pedro Nava lamentou, nas memórias escritas em 1976, a redução progressiva do Parque à quarta parte da sua extensão inicial, embora a Faculdade de Medicina fosse apenas uma entre as várias invasões que ocorreram de maneira “lenta e sorrateira”.

A partir da segunda metade do século XX, principalmente ao longo da década de 1960, as transformações na trama urbana de Belo Horizonte atingiram um ritmo contínuo e acelerado. Essas mudanças estavam em consonância com os novos moldes de desenvolvimento vigentes à época, bem como o otimismo em torno das promessas de progresso trazidas pela industrialização e de uma nova posição a ser ocupada pelo Brasil no panorama internacional. Belo Horizonte se tornaria, rapidamente, um espelho claro das distorções do projeto desenvolvimentista. A falta de planos de urbanização, num quadro de um crescimento populacional tão amplo, levou a uma situação de constante falta de água, pelo esgotamento dos mananciais mais próximos, e à precariedade da coleta de lixo e do sistema de esgotos. Em 1962, Belo Horizonte ocupava o vergonhoso primeiro lugar de incidência de gastroenterite no Brasil, bem como alcançando a taxa de mortalidade anual por diarréia aguda de 110 por 100.000 habitantes.

Ainda nos anos 60, quando a frota de veículos da cidade conheceu sua primeira grande expansão, várias mudas de fícus foram plantadas no local do antigo campo de futebol da Faculdade de Medicina, com o intuito de abrigar um amplo estacionamento. Nas décadas seguintes, alguns projetos, vindos da própria universidade, propuseram a revisão urbanística da área, em que seriam reavaliados os espaços entre os prédios, o fluxo de automóveis, o asfaltamento, privilegiando-se a necessidade de permeabilização do solo, de arborização e de paisagismo. Não lograram efetivar-se. Os fícus, entretanto, cresceram e, junto com a arborização que gradativamente foi ali implantada – com o privilégio de árvores nativas – passaram a compor uma extensa área verde contígua ao Parque, destacando-se na paisagem da cidade.

Apesar do cerceamento da liberdade naqueles anos, inúmeros debates aprofundaram a reflexão sobre as dimensões sociais, políticas e ambientais presentes nas questões referentes à saúde. Após amplo debate na UFMG, estabeleceu-se um novo currículo, pioneiramente voltado para a “formação de um médico generalista, imerso na realidade de saúde do País”. À formação intra-hospitalar do aluno somaram-se as práticas de atendimento ambulatorial em vários postos da cidade de Belo Horizonte e, ainda, no interior do Estado, por intermédio do Internato Rural. Dessa prática, emergiu a constatação das mais amplas dimensões ambientais, sociais e políticas dos dramas vividos pelas pessoas doentes, o que originou um movimento ambientalista pioneiro.

A criação do Projeto Manuelzão, na Faculdade de Medicina, em 1997, estabeleceu um novo paradigma para a reflexão sobre a saúde, relacionando-a com “a qualidade de vida, com o ambiente e o caráter das relações sociais”. Rompendo com a tradição assistencialista e autoritária, esse Projeto, ao optar pelo estímulo à mobilização social, construiu uma rede de conhecimentos transdisciplinares e de valorização da diversidade cultural. Atualmente, atuando em toda a região da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, bem como unindo práticas médicas, científicas, culturais, políticas e ambientalistas, o “Manuelzão” impressiona por sua vitalidade.

(ver http://www.manuelzao.ufmg.br ).
No dias atuais, um transeunte despreocupado que se aventure a percorrer calmamente a região hospitalar de Belo Horizonte, em meio ao nervosismo de veículos e pedestres, tão intenso nessa área, descobre-se em uma das regiões mais arborizadas do Centro de Belo Horizonte. Caso olhe para cima, encontrará um imenso teto verde, através do qual avista um ou outro pedaço de azul, em meio à luminosidade filtrada por galhos e folhas. Uma grande sucessão de copas de árvores confunde-se na seqüência das ruas. No meio de todo esse conjunto arbóreo, os fícus plantados em frente ao prédio da Faculdade de Medicina estendem seus galhos em direção à rua, desafiando os limites estabelecidos pela grade, que, no solo, separa o território do Campus do espaço público mais amplo da cidade.

No entanto, apesar da aparente harmonização das árvores com as construções ali edificadas, é importante ressaltar que a estreita relação existente entre o conjunto arquitetônico da cidade e as práticas de uso e ocupação do solo foi, quase sempre, perpassada por intensos conflitos e dilemas, e ainda os enfrenta, à medida que se fazem necessárias a tomada de decisões para a ampliação dos serviços do Hospital das Clínicas — cujo atendimento é prioritariamente vinculado ao SUS — à população de Minas Gerais.

A área verde do Campus Saúde da UFMG ameniza a poluição sonora e do ar, assim como o calor gerado pelo crescimento urbano e pelo aumento da área asfaltada e do número de arranha-céus de concreto. A paisagem acolhedora e a beleza de várias árvores emolduram caminhos e detalhes paisagísticos, lugares habitados por inúmeras lembranças de cunho pessoal e coletivo. Ao acompanharmos as transformações ocorridas nos seus arredores, evidenciam-se aspectos das interações da sociedade com o meio ambiente urbano, inscritas nas linhas dos edifícios, na abertura dos caminhos para transeuntes e carros, no desenho dos jardins, nos monumentos inaugurados, na arborização, na mescla da construção da paisagem urbana à história do próprio homem e da natureza que o cerca.

Agradecimento

Este artigo contou com o apoio do CNPq, da FAPEMIG e do Centro de Memória da UFMG.
Imagem da página oposta: vista da cidade de Belo Horizonte desde o prédio da Faculdade de Medicina, Campus Saúde, no qual existem mais de duzentas árvores, entre as quais espatódias, amendoeiras, tipuanas, sibipurunas, alecrins de campina, paineiras, flamboyants, fícus, paus-ferro, araucárias, ipês e palmeiras de diversos tipos. Foto: Maria do Carmo Verza Sartori, 2007.

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