Dica de Leitura!

Pescaria no Rio Cipó

A história e visão de um rio com o ecossistema preservado que fez nascer o Projeto Manuelzão

Apolo Heringer Lisboa – redacao@revistaecologico.com.br

“O Rio Cipó não ultrapassa muito a largura de uma rua, sua água tem uma tonalidade escura, e mais escuro fica com as sombras das árvores ciliares que se debruçam sobre seu leito” - Foto: Sanakan

“O Rio Cipó não ultrapassa muito a largura de uma rua, sua água tem uma tonalidade escura, e mais escuro fica com as sombras das árvores ciliares que se debruçam sobre seu leito” – Foto: Sanakan

Junho de 1988, Serra do Espinhaço, Minas Gerais. Chegamos às margens do Rio Cipó e apeamos. Eu acompanhava três experientes pescadores semiprofissionais, que mensalmente iam ao rio para abastecer a pensão-restaurante da família. Eram mais ou menos 20 horas. Havia percorrido uma hora de carro, em estrada de terra, desde Presidente Juscelino, antiga Paraúna. O pessoal tem preferência pela lua quarto-crescente visto a escuridão ser favorável àquela modalidade de pesca.

Com folhas secas e gravetos, fizemos o princípio de uma fogueira, que quase do zero de um pau de fósforo foi se encorpando até gerar um novo ambiente no local. O fogo é fascinante. Estávamos sob uma gameleira de dezenas de metros de altura seguida de algumas outras árvores menores acompanhando o rio, num local que chamamos de prainha. Tomamos um café trazido na garrafa térmica e jazinho os primeiros espetos de vara, nascidos ali no ato, introduziam os pedaços de alcatra no braseiro. No preparo da fogueira, durante a procura da lenha e manejo da carne, íamos provando o aperitivo de cana trazido da fazenda do Senhor Miguel, velha pinga de 20 anos de curtição.

Com essa providência o ambiente já era de festa. E mal provamos os primeiros pedaços de carne, os dois pescadores mais novos embarcaram rio abaixo, colocando redes lado a lado do rio e sondando a noite.

Voltaram vibrantes, mais de uma hora depois, trazendo já dois curimatãs. Meia hora depois partimos os quatro na canoa, indo rio acima por uns 200 metros e, depois rio abaixo, com idas e vindas que perfizeram uns três quilômetros, cortando passagem por entre picos de lapa e trechos encachoeirados.

O borbulhar da água nestes locais, destacado pelo silêncio absoluto da noite, orquestrava os múltiplos sons graves e agudo emitidos pela natureza, levando-nos às vezes a escutar diversos matizes de vozes humanas. A canoa ia descendo silenciosa, como que deslizando. Na proa o fisgador, de pé, como uma carranca do São Francisco, empertigado e atento, com o farol alimentado por bateria de carro na mão esquerda e a longa vara com o arpão na ponta, na direita, vasculhando o rio. No centro, assentado, estava eu.

 Na minha frente, pouco atrás do fisgador ou arpoador, de pé, ia o tarrafeiro, pronto para balançar no ar sua longa “saia” e despachá-la voando sobre o peixe cujo menor tamanho dificultasse sua captura pelo arpão. E foi isto que aconteceu logo em seguida, trazendo mais um curimatã para o barco. Na ponta de trás, ou popa, estava o remador, às vezes assentado, ou mais frequentemente de pé, determinando, com longa vara que tocava o fundo do rio, a nossa direção por entre as rochas, perfeitamente sintonizado com as intenções e menores gestos do homem da proa, o fisgador.

No Rio Cipó

Passamos por lugares muito rasos, forrados por pedras; por remansos bons para o mergulho, por lugares fundos e estreitos chamados canais e por corredeiras. O Rio Cipó não ultrapassa muito a largura de uma rua. Às vezes avança sobre pontas de pedras, outras vezes é manso. Sua água tem uma tonalidade escura que ele traz da serra, e mais escuro fica com as sombras das árvores ciliares que se debruçam sobre seu leito.

Diversas vezes ouvimos ruídos às margens. Poderia ser paca, ou rez, ou outra coisa qualquer. A espingarda 32, cartucheira, estava no chão do barco com o bico voltado para frente, pronta para agir, numa ou noutra circunstância. Há proprietários que não gostam de ver pescadores no fundo de seus quintais e são motivo de preocupação. Alguns são violentos e podem supor que os estranhos sejam mal elementos da cidade grande, embriagados e armados, ou mesmo os temíveis assaltantes de fazenda. Nisto, rápidos ruídos silenciosos correm o barco agitando gente e coisas, o farol procura aqui e ali e o fisgador em riste dispara o arpão sincronizado com rápidas manobras do remador-leme.

A boia branca corta o rio aos pulos para lá e para cá indicando resistência do grande surubim e indicando sua direção. Outro arpão já está preparado na ponta de uma longa vara de três metros para acabar com o peixe que embora cravado no dorso ainda se opunha em velozes corridas, cansando-se, esvaindo-se, parando um pouco num remanso, assustado. Nisto o fisgador atira fortemente sua mortal e certeira flecha que brutalmente secunda a primeira, penetrando tão fundamente na branca carne do animal e por entre suas grandes e espinhosas costelas que permite, sem medo de perder o peixe, trazer o bichão pela corda que liga o arpão à vara. Devia ter no mínimo uns quinze quilos e foi o segundo da noite. Sua boca enorme, maior que uma criança de seis meses, não possui dentes e é forçada pelas mãos do pescador no sentido ântero-posterior até liquidar com o bicho que pouco reage dentro da canoa e agora jaz ao lado dos três primeiros curimatãs e de outro surubim menor.

“Eu era ali um observador ecológico privilegiado, acompanhando
homens que se dedicavam apaixonadamente
à principal atividade lúdica de suas vidas.”
 – Foto: Márcio Hamilton

Pintados, pacús…

Este peixe é também chamado de pintado por causa das manchas escuras que tem no couro. Chamam couro para enfatizar a ausência de escamas. Vez por outra um pacú, um curimatã, um mandi são seguidos à distância pelo farol e desaparecem pelas grotas fugindo ao foco da implacável perseguição. O segredo deste tipo de caçada é não provocar ruídos no assoalho do barco, que são transmitidos à água e aos peixes. As conversas normais não prejudicam, nem a luz que traiçoeiramente os iluminam nas águas transparentes do Rio Cipó. Outro surubim arpoado consegue escapar ferido, talvez sobreviva, talvez não, deixando o arpeiro visivelmente conturbado com a situação. O verdadeiro pescador parece admirar a bravura do peixe, não deixando de contar histórias sobre a resistência de um surubim, dourado ou outro qualquer. Quanto mais extraordinária for a caça, melhor se sente. Mas se sente culpado quando o espécime escapa ferido. Dá-lhe uma coisa ruim por dentro.

De repente, passa um matrinchã e a tarrafa cai-lhe em cima. A luta contra o peixe dura alguns minutos tensos, pois há sempre a possibilidade de romperem-se os fios daquela armadilha e a presa escapar. O farol mostra-o na tarrafa se entregando estrebuchando nas mãos cada vez mais próximas da morte que finalmente o liquida com um golpe certeiro de porrete na cabeça antes de arremetê-lo ao barco. Este procedimento é comum também nos peixes maiores presos nas redes estendidas de um lado a outro do rio, que são vistoriadas em toda sua extensão sempre que o barco por elas passam subindo ou descendo a correnteza. Às vezes um rasgão encontrado nelas ativam a imaginação dos pescadores e a busca cresce em emoção.

Os pescadores sabem que o uso desta rede é proibido. Ela retem peixes de todos os tamanhos, ameaçando a sobrevivência das espécies pois enquanto dormimos em nossas casa inúmeros pescadores passam a noite fincando suas redes de lado a lado das margens dos rios bloqueando completamente a passagem com as malhas invisíveis da morte. Nela se enrascando, o peixe, assustado, força-a para frente, até exaurir-se. Mesmo que pudesse dar marcha a ré estaria engastado por suas barbatanas e quanto mais movimento faz pior fica.

Sobe, pela madrugada, da superfície quente da água, em relação ao ar frio de junho, uma leve fumaça que brota por toda parte, prejudicando a visibilidade. O frio aperta. Os dois rapazes da “expedição” saltam descalços até as pedras afim de redirecionarem o barco por entre lapas e corredeiras, numa atitude corajosa e áspera tal era o frio às duas horas da madrugada. O prazer dos pescadores em capturar o peixe não vê obstáculos à sua empreita. O farol cruza de novo o rio para todos os lados e encontra a terceira rede quando, horas depois de olímpica atividade, retornávamos rio acima em busca do nosso fogo. Achamos um novo curimatã que resplandesceu sob a luz do farol. Trazido à superfície é imobilizado com uma firme paulada na cabeça. Este golpe de misericórdia sucedia sempre que na tarrafa ou na rede havia peixe de certo porte para que não escapasse ao ser jogado na canoa.

Observador ecológico

Eu era ali um observador ecológico privilegiado, acompanhando homens que se dedicavam apaixonadamente à principal atividade lúdica de suas vidas.

As conversas eram poucas, sempre relacionadas com o rio. Ora o frio que fazia-nos ter “chimbre”, ora os peixes grandes que sumiam sem serem fisgados, ora discussões sobre para onde seria melhor levar a canoa. A posição do arpão na mão firme do pescador recomendava irmos descendo pela direita e subindo pela outra margem. Mas isto podia variar na transversal, conforme as características que o rio ia adquirindo. O mais velho deles, pai de um dos rapazes, dizia-me, arpão em punho, que quando mais moço pegou muito dourado e surubim de maior porte no Rio Paraúna, mas que infelizmente acabaram com o rio. Responsabilizou as redes estendidas pelo rio, da foz à nascente, sobretudo durante a piracema.

Antigamente era muito comum, dizia, pescarem com explosivo, como dinamites, e o efeito foi devastador. Hoje é a poluição pela indústria, os esgotos, as minerações e o uso generalizado de agrotóxicos são piores que os dinamites – arrematou apopléctico em defesa de seu rio.

Fiquei vivamente intrigado com a linguagem daquele novo tipo de companheiro ecologista, rude sertanejo, criado na beira do rio, comerciante de pequena monta, admirador, a seu modo, da natureza, da caça e da pesca. Eles podem fazer muito pelo ecossistema se incorporados, de forma positiva, a este mutirão. Odeiam o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis Ibama de hoje, como o IBDF de ontem. Denunciam a caça aos pequenos pescadores e o protecionismo às empresas rurais e urbanas, que produzem a destruição em escala “industrial” das espécies.

No barco, eu alternava posições em pé e assentado, para acomodar a coluna e esquentar um pouco os músculos glúteos anestesiados pelo frio e posição incômoda durante tantas horas. O frio era intenso e úmido, meus agasalhos insuficientes. E a canoa muito leve e comprida ao balançar obrigava-me permanentemente a buscar o reequilíbrio. Com uma cuia ajudava a tirar água que ia enchendo o chão da nossa embarcação, o que me entreteve e aqueceu nas cinco horas de nau.

Experiência de pescador

Para mim, embora gostasse da experiência, a volta ao “acampamento” foi um alívio. Assamos queijo e alcatra nos espetos, entre goles de cachaça da boa. O bom pescador bebe mas não se embriaga. É sóbrio. Pois há, na pescaria, os seus riscos. Uns inclusive preferiam mais o café. A fogueira fora reacesa rapidamente com nova geração de lenha catada nas reentrâncias arteriais onde há muita madeira trazida pela última enchente e deixada engarranchada em paus e troncos.

Depois da ceia nos estendemos à beira da fogueira sobre uma lona, com os agasalhos e cobertores deles, de muitas pescarias jamais lavados. Eram três e trinta da manhã. De tempo em tempo alguém se levantava para colocar lenha no fogo, pois o intenso frio nos mantinha apenas dormitando. O sono melhor veio pela manhã, com o Sol. Fez-nos muito bem lavar o rosto no rio e tomar o resto de café da garrafa térmica com um pedaço de pão. Para adiantar o expediente uns foram colocando os peixes no isopor e no porta-bagagem do carro. Eram mais de quarenta quilos de peixe, já limpos. E o Sol, refletindo sobre a relva eneblinada, resplandece-a nos dando bom-dia.

A sensação de aquecimento do corpo pelos pequenos exercícios e o calor do sol faz nosso espírito achar que todo o frio, e sono não dormido da noite no rio, valeram a pena. Só não esperávamos que a caminhonete enguiçasse. Não quis ligar. Estava mal estacionada, muito perto de um declive e da beira do rio, cercada de mato escorregadio com muito pouco espaço para pegar no empurrão. Tivemos que esperar mais de quarenta minutos para que um dos nossos fosse até a fazenda mais próxima buscar uma junta de bois. Só assim os cavalos da potente máquina funcionaram.

O terreno onde passamos a noite pertence a Raiz, vilarejo de Presidente Juscelino, na roça conhecida por Cela Grande, de amigos do Sika e do Siquinho. Há uns seiscentos metros do rio está a casa de dona Raimunda, viúva valente e jovem , com vários filhos, que monta cavalo, toca o gado, tira o leite, fala firme e tem aspecto de vaqueiro. Seu marido foi vitimado pelo Mal de Chagas. A cachorra Diana, desta senhora, nos acompanhou por toda a noite, ao lado do acampamento, nos prestando inestimável ajuda policial contra a aproximação de outros animais. Por isto ganhou nossa simpatia e uns bons pedaços de alcatra.

Enquanto nos afastávamos pelo caminho de terra, subindo morros, o Rio Cipó ia desaparecendo entre suas muitas curvas. Tomara que ele sobreviva.


NOTA DA REDAÇÃO

Vinte e cinco anos depois, não apenas o Rio Cipó sobreviveu, parcialmente preservado como parte integrante do Parque Nacional da Serra do Cipó, como o Projeto Manuelzão tornou-se o que é, um exemplo para o país, em defesa vigilante e propositiva da qualidade de todos os nossos cursos d’água.

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