Desastre Natural ou insanidade humana?

Desastres, desabamentos, mortes. Afinal, quem são os responsáveis pelas tragédias que acometem a sociedade em tempo de chuvas intensas? Leia abaixo um artigo do Coordenador Geral do Projeto Manuelzão que traz uma intensa reflexão sobre estas questões.

Afinal, de quem é a culpa?
“Charge publicada originalmente no jornal “DIÁRIO DO POVO (Campinas/SP)

Marcus Vinicius Polignano – Coordenador geral do Projeto Manuelzão e Professor da Faculdade de Medicina UFMG.

Pensei em como ser solidário com as vítimas da região Serrana do Rio Janeiro e de outras áreas e decidi escrever este artigo. Primeiramente para dizer da indignação pelas vítimas indefesas em todos os sentidos, quer seja pela fragilidade física (crianças, idosos), quer seja pela fragilidade ambiental, social, econômica e política dos que sucumbiram.

A melhor palavra para descrever esse fato é tragédia. Essa palavra tornou-se uma denominação para um acontecimento doloroso, catastrófico, acompanhado de muitas vítimas. Na Grécia Antiga, Aristóteles afirmava que o espetáculo trágico para realizar-se, deveria sempre provocar a catarse, isto é, a purgação das emoções dos espectadores. Por isso que a tragédia da região Serrana e de outras cidades nos aproxima e causa tanto pavor, dor e compaixão.

Ela arrastou não somente casas e pessoas, mas também abriu as entranhas das nossas mazelas cotidianas que não queremos ver. Longe da mídia diária, essa realidade não se mostra visível: a realidade do nosso apartheid social, de pessoas excluídas de condições adequadas de moradias,  saneamento, educação, alocadas nos leitos de rios ou em topos de morros.  Pessoas que se negam a sair de suas casas, mesmo quando essas estão prestes a cair. Pois despossuídas que são, não abdicam do único pedaço de terra que lhes cabe neste latifúndio.

Essa tragédia demonstra uma falência social e institucional. Onde estão os governos? Os partidos políticos? Onde estão aqueles que deveriam administrar as cidades e não as catástrofes? Onde está o CREA, com seus geólogos e engenheiros? Para que servem os parlamentares e sobretudo os vereadores? Onde estão os médicos e os serviços de saúde que deveriam garantir a saúde coletiva, e não simplesmente a sobrevivência em áreas de risco?

Como culpar os fenômenos naturais? Eles são do conhecimento da humanidade há séculos. As margens são dos rios. As enchentes são fenômenos da natureza. As cidades é que foram sendo concebidas para além das leis naturais, criando as suas próprias. Canalizamos córregos, desmatamos, impermeabilizamos e fazemos uso inadequado do solo. Depois, nos espantamos com a força das águas. E não podemos desconsiderar o aquecimento global, que faz com que os fenômenos se apresentem com maior intensidade e gravidade.

As águas e solos são interdependentes. A drenagem depende da tipologia geológica e da presença de plantas para que as águas sejam absorvidas e retidas. Desconsideramos estes fatos e, por negligência, incompetência, inoperância, especulação ou até mesmo como “solução”, deixamos as comunidades tomarem posse das áreas de risco.

Não podemos continuar edificando cidades e desconsiderando a gestão das águas. Não poderemos construí-las centradas na injustiça social e ambiental, submetendo as populações ao risco das catástrofes. Temos que fazer gestão de bacias hidrográficas. Temos que ter uma visão ecossistêmica integrando biodiversidade, uso e ocupação do solo, e sociedade humana para que possamos ter um desenvolvimento sustentável e não catastrófico de bacia.

As vítimas somente mudam de cidades, mas não de verdades. Substituem-se os nomes, mas não os cenários. Podemos facilmente identificá-los aqui mesmo em Belo Horizonte. Aos que se foram, há que se lamentar a morte prematura, certos de que não serão condecorados, mas com certeza serão lembrados para que possamos reconstruir a nossa história.

Fonte: Site do Projeto Manuelzão. Postado em 28/01/2011.
“Charge publicada originalmente no jornal “DIÁRIO DO POVO (Campinas/SP)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s